30.3.08

Desapego II

Ficou esperando-a voltar.
Enquanto olhava os reflexos da porta giratória mudarem, ela sumia pelo lado de dentro do vidro. Suas costas... Nunca lhe pareceram tão duras como naquele dia. Mesmo sabendo que nunca mais a teria, ficou plantado na frente do prédio a manhã toda. De fato, não a merecia.
Ao meio-dia, desistiu de esperar. foi derramando suas esperanças pelo meio da rua, como poeira pelo chão, pelo vento, pelos olhos... Só queria agora chegar mais leve em casa.



Desapego I

Enfim, era noite.
Naquele quarto pobre de motel, ela tentava não pensar em nada enquanto ele beijava seu pescoço, as flores do papel de parede pareciam querer desconcentrá-la. A meia luz do quarto dava um tom triste e brega, até um tanto desesperado à situação; pareciam querer murchar.
Deitaram. O cheiro de cigarro no lençol, deixado pelo casal anterior, parecia querer apagá-la enquanto ele a despia. Os ritmos estavam diferentes ali, naquela noite, ela pensava enquanto tocava os cabelos dele. Quando se abraçavam, beijavam, ou se olhavam no fundo dos olhos, tentou, de coração, amá-lo, ou sentir alguma coisa propícia ao momento.
Mas não dava. Aquela flores mortas, a imagem do espelho desfocada pela miopia, o cigarro na fronha, realmente conseguiram entorpecê-la, quase ao ponto da depressão, deixando apenas uma reação de torcer para que amanhecesse logo.

Saiu antes que ele acordasse, deixou a conta paga e nenhum recado no espelho. Ao menos pôde dormir um pouco no trajeto do trem até sua casa.

Irmaos Brain