21.7.10

Calada da Noite

Nasci numa segunda-feira, às 21:35h.
Talvez por isso eu goste tanto de segundas e, mais ainda, das noites.

Me dava raiva quando minha mãe dava o toque de recolher às 8 da noite e todo mundo tinha que deitar. Eu deitava, mas não dormia. Ficava conversando com meus irmãos até o limite da paciência dela, então ficava quietinha e fechava os olhos. Mas não dormia: apertava as pálpebras com a mão ou o antebraço e acompanhava todas as luzes e formas que apareciam na minha frente. Me divertia muito com isso! Descobri que quando eu coçava o canto do olho fechado no escuro, ele aparecia em preio e branco me olhando do outro lado . Muito doido isso, um lance que não dá muito pra contar pra outra pessoa quando você tem 6 anos, é só seu. Mas tenta um dia. Ficava nessas brincadeiras de apertar o olho fechado até as pirâmides beges aparecerem e me dar dor de cabeça. Aí eu dormia.

Dos 10 anos em diante, as minhas escapadas da obrigação de dormir eram as noites colada no rádio. Deitava na sala pra não atrapalhar ninguém com a música - eu ainda não tinha medo de escuro - e passava noites escolhendo as trilhas pros filmes que eu fazia na cabeça. Era aquela época em que se esperava o lançamento da banda tal tocar uma vez a cada duas horas, ou entre as Dez Mais do Dia, antes de anunciarem o primeiro lugar, que era o espaço dedicado aos lançamentos ou a alguma promoção. Durante a noite eu ouvia as músicas mais raras, as bandas desconhecidas e me achava a pessoa mais alternativa do bairro. Quando Strokes ficou famoso no Brasil, eu já sabia deles antes da internet. Nas vezes em que via as manhãs chegando, passava o resto do dia cansada, ajudando a minha mãe e ouvindo broncas e promessas de dormir sem música na próxima noite. Quando recebia o castigo, driblava minha mãe escrevendo com meus diários e uma lanterninha debaixo da coberta, hahaha. Eu me sentia muito fora da lei.

Isso até chegar a fase de ter um trabalho e escolher uma faculdade. De trilhar um caminho na vida que traga dinheiro. Troquei algumas noites por livros, pesquisas, coração partido, preocupações [baladas nem tanto, minha adolescência foi de poucas festas], mas assim podia ficar acordada porque era coisa séria, responsável. Achava tão injusto quanto ser proibida de ficar na calçada conversando até as 11, mas poder chegar quase meia-noite em casa porque estava na faculdade, como aconteceu nos anos seguintes. Sobre empregos, muitas vezes procurei pelo horário da noite, tentei mudar, incluir esta opção nos lugares onde trabalhei. Mas com pouca idade e experiência, pro que eu sabia fazer ou não tinha como ou só homem podia.

Enfim. Arrumei empregos legais (todos durante o dia), me formei, fiz outros cursos e com essa independência toda pude gastar muitas noites acordadas pela cidade, por bares, vários rolês e dias seguidos sem dormir, com aquele visual abatido no trabalho no outro dia, mas sem nenhuma culpa no coração. Todo um contentamento interior.

Dane-se o dia, se o Sol é lindo e tudo está claro. Eu sempre gostei mais das noites.
Nas noites acontecem coisas mais interessantes do que quando é dia, e o silêncio atinge a sua perfeição.
É só durante a noite que eu consigo escrever e depois disso, apertar meu olho com o antebraço e me divertir com o colorido até chegar nas pirâmides. Durante o dia não tem tanta graça, fica só vermelho.
Sinceramente, quem inventou que a noite foi feita pra dormir deve ser um recalcado, criatura de criatividade reprimida, um excluído das festas e que nunca amou. Vaias para ele.

Ainda volto aqui pra contar que consegui um trabalho onde seja preciso trocar a noite pelo dia.




Irmaos Brain