22.2.08

22.02.00

Quem se importa com os pontos de luz e tinta pra fora da marca de corte deve achar que a variação de cores na fábrica de nuvens tem alta relevância. Bobagem. Ela apenas funciona, e quando ninguém olha, ela pára. Mas mesmo com um muro tampando a visão, penso nela e se existe mais alguém que se preocupe, talvez em dias chuvosos ou noites vermelhas.
Fora um dia cheio no trabalho, mas a função de aprendiz dispensa certas preocupações. Saiu pensando nele e em outras coisas além da vida em volta da vila por onde passava todo dia. Pensou também em tatuar uma tira de controle, mas onde? Não tinha casa pra vender ali, talvez na rua paralela, ou na rua do sacolão... Outro dia passaria por lá.
Andou devagar porque era uma tarde laranja e gostava de pôr do Sol, Michel também gostava. Dizia que as vias do ônibus e os fios de luz ganhavam um aspecto limpo, igual cabelo quando acaba de ser lavado. Dava pra perder um tempo admirando o laranja mudar pro violeta e ir escurecendo o tempo porque agora era noite, traz um sentimento bom. Dava vontade de deitar na rua com a tarde.
Chegou em casa e ainda estava claro, largou as coisas na cama e pegou algo pra comer, mas voltou logo pra calçada porque o Michel e o pessoal da porta da escola...

“Alô?”
“Oi Ana”
“Oi, Luiz. Tudo bem?”
“Não”
“O que houve?”
“É o Michel...”
“Aconteceu alguma coisa com ele?”
“Sim, eu tenho que te contar.”
“Fala!”
“Ele voltou pra ex”
“ “
“Ele está chateado, está com medo de você, da sua reação. Ele gosta demais de você e não quer te ver triste por causa dele, mas eu acho errado o que ele está fazendo com você. Aquela história de perseguição, da mudança, da depressão e de toda a vida complicada dele é mentira, era a ex dele o tempo todo. Ana! Desculpa, você ainda está aí...? Desculpa por ser eu, também não quero chorar pelo Michel mas a verdade é que ele é um filho da puta e você...”

No heliporto as cores dos telhados e a intensidade dos ventos pareciam fáceis de se controlar. Mas era proibido ficar lá. Deitou. O laranja das nuvens se desfazia de um jeito torpe e cru, como salmões se desfazendo numa tigela cheia de shoyu, mas sem o gosto salgado. Concluiu que a noite demora a escurecer quando não há música.




12.2.08

Auto Ajuda Barata - Sobre Manchas e Pedras

* era parte de uma carta, mas mudei de idéia.


Sabe quando você derrama o que está bebendo em um tapete ou na roupa?
Dependendo do que cai, de como ou onde cai, a gente limpa na hora pra não manchar; se nem é tão importante, ou se há preguiça, então o líquido acaba secando sozinho. Mas aí fica a mancha, e mesmo que passe um tempão, você vai olhar praquele tapete ou aquela roupa, e a mancha vai estar ali, pra te lembrar do descuido. No pior dos casos, pode atrair alguma formiga que se encarregue de limpar, mas da maneira dela, que não é lá tão eficaz.

Dá pra fazer uma boa analogia com as coisas que fazemos às pessoas e o que nos fazem de volta. Às vezes a gente passa por coisas que podem até ser simples de resolver, mas que por alguma dificuldade - ou má vontade - qualquer, vão ficando por ali com o tempo, secando, até sumirem. Mas algumas deixam manchas. E, mesmo depois de um tempo, como já foi dito, você vai olhar e pensar "eu podia ter limpado isso". Igual perfume quando quebra no chão do banheiro, anos se passam e o cheiro ainda está lá.

A sujeira dura de acordo com o tempo que você resolve limpá-la, mas se você demora demais não adianta. Mas isso vai da percepção de cada um.

E por que estou dizendo isso? Porque estou em situações assim. Mesmo com o pano na mão, tem coisa que caiu que é fora do meu alcance, não depende só de mim. E isso é horrível pra quem tem mania de organização como eu, se é que me entendem bem.

Quem ultimamente está do meu lado (aliás, até agradeço a paciência) sabe que não tenho estado muito bem, em vários aspectos, e que minha recuperação não está sendo fácil. Tanta coisa que eu quero falar, mostrar, mudar, e preso aqui, me corroendo por dentro, e que eu não posso, não quero, deixar de lado, mas... Mas como Saramago disse uma vez, "é preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra". Não tem muito a ver com o lance do suco que cai, da mancha, mas é uma citação que me fez pensar em quem ou no quê ando me preocupando, em manchas antigas que andei cultivando, nas de agora, nas que estão por vir...

Então temporariamente coloco uma pedra "aqui", nesse momento da minha vida.
Até que eu evolua o suficiente pra resolver - ou desencanar de vez - das pessoas e coisas que andam rolando.
Não quero pensar que passei uma imagem trágica, melancólica, dramática, e que estou rolando na depressão - não sou emo, porra -, até concordo que é brega sair escrevendo disso na internet, acho ridículo, assumir fraqueza assim. Tampouco quero alugar os outros com lamúrias, ainda mais em situações onde não podem ajudar. É um desabafo que não quero jogar em ouvidos alheios (talvez nos olhos). Acho uma satisfação a quem se importe um mínimo. Ou a quem esteja passando por situações parecidas e também nao sabe como resolver. Ou a quem não tem o que fazer e chegou aqui por curiosidade, sei lá.


A quem interessar, sabem onde me achar. Desde que não venha me encher o saco.
Prometo voltar quando melhorar.


[Imogen Heap = The Moment I Said It]



"... I've got a bad feeling
Oh trust me on this one
You're gonna throw it all away
With no hesitation
Bye bye..."

7.2.08

Rabisquinho



Ah que euforia que dava
Quando eu te via por mim passar
Eu fingia nem notar
Mas tremia de palpitar

Hoje sou dura feito porta
Quedar sozinha, agora é hora

Se é ou não é, não importa













(mentira)

5.2.08

Miguel

"Olha o que um tio meu me falou, Ana! Eu tinha uns 4 anos, e sabe aqueles cabides que vc põe no chão e tem uns trecos pra vc pendurar as roupas? Ele comprou um desses, mas não era de madeira, era de ferro, alumínio, sei lá. Era brilhante e chamava a atenção, pq ele tinha algumas pontas e era giratório. Eu olhei e achei mó bonito, era mó brilhante, e perguntei 'Nossa tio, o que é isso?'. Sabe o que o desgraçado me respondeu? 'Ah... Isso é uma estrela, ela caiu do céu e eu fui correndo atrás e a peguei!'.
Eu fiquei encantado, fiquei olhando aquilo e pensando como era possível brilhar tanto, e fazia sentido pra mim, pois a estrela tinha pontas mesmo, igual aquele treco giratório. Fiquei tão encantado que duvidei por um momento, e decidi fazer a coisa mais sensata, perguntar pra uma segunda pessoa de confiança. 'Pai, isso é uma estrela mesmo?'. 'Claro meu filho'.
Maldito. E saí falando pra todo mundo que o tio tinha pegado uma estrela.
As pessoas ficaram felizes, assim como eu, rindo (de mim) comigo."



Miguel me deixa bem.




4.2.08

Moscou I

"Você só arruma perdedores", sua mãe havia lhe dito um dia.
"Não, mamãe, a perdedora sou eu... Mas não vou perder hoje de novo, ah, não dessa vez", bradou em pensamento enquanto saía pela porta.
Entrou no carro. Aquele perfume tão dele a inebriava, e aqueles malditos olhos a desarmavam, enchiam daquela coisa que só ele tem e que passa só pra ela. Seu olhar de ódio jamais o atingiria, ele estava protegido pelo óculos, foi enfraquecendo.
"Há quanto tempo..." ficou parada, revivendo alguma coisa que já não tinha importância naquela hora, enquanto ele a abraçava? As palavras saiam de sua boca como um maldito tocador de flautas, ela toda cobra hipnotizada, deixando o veneno escorrer pelos poros, dormente, dançando conforme seus olhares.
Mesmo sabendo de toda a seqüência dos fatos, daquele jeito só dele de tocar seu braço e beijar com os olhos cerrados, das mãos em suas costas, do peso do cabelo tão liso dele sobre seu peito... Mesmo sabendo que, sim, tinha como acabar com tudo aquilo a tempo de vencer a guerra, foi desertora. Qualquer arma que sacasse ali, na hora, qualquer ato seu, qualquer estratégia seria inútil: ele sempre percebe e lança seu antídoto.
Suas pupilas de fundo do mar abriram como se quisessem engoli-la, e chegaram perto bem devagar. Foi a última coisa que viu antes de amanhecer.

Ela havia perdido mais uma.




[...continua]



Irmaos Brain