26.2.10

Rascunho

A tarde começa a cair do mesmo jeito que começou o dia: azul.

Azul e com garoa.
Mas gostava de dias assim, de toda a melancolia poética que dias assim trazem. São dias soltos, pesados, caem de lá do calendário de inverno e vêm para a parte de baixo, do começo do ano.

Enquanto descia a ladeira pensava na quantidade de canetas e folhas gastas lá nos anos atrás. Nada disso preenchia o vazio que sentia no peito. Agora quer se livrar de toda a papelada porque na casa nova não tem espaço pro que era de ontem, o peito estufado com as coisas cotidianas.

O ar hoje é de um passado esfumaçado, algo perto de uma neblina escura que não incomoda, mas vem com aquele cheiro de cravo das gavetas e o aroma de papel velho. Cheiro de cachecol, se misturando ao mofo de carpete de anfiteatro. Como são bons esses cheiros de época.

Respirou fundo e sentiu-se bem. O cheiro que veio depois era só do ar gelado que queimava as bochechas. Agora, era só o barulho de asfalto molhado embaixo do seu tênis.
Era melhor assim, certas coisas são melhores apenas quando são lembradas.
Outras, nem isso... Não são mais pra hoje.



16.2.10

O Mundo anda Tão Complicado II

Lembrei hoje de manhã dessa música, da época em que ouvia Legião e a vida era fácil de um jeito diferente. Tinha a escola com sua biblioteca gelada e a quadra na laje, poucos amigos, CDs em cima da cama e tardes longas para gastar o lápis até que a noite escurecesse as páginas. Sem as preocupações que tenho hoje. Naquela época a minha vontade de revoluções era grande.

Hoje o mundo anda bem mais complicado e pouca gente ainda gosta de Legião. Hoje as cores são bem diferentes das que eu via antes. Mas eu não ligo. No meu mundo quem dita as formas e cores sou eu, mesmo que algumas delas não compartilhem outros mundos. Não quero invasão, nem de lá nem de cá. Os caminhos daqui são de folhas brancas, pra gente ir riscando o que quiser, quando quiser. Aqui também não tem borracha, mas eu também admiro os riscos tortos.

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo, e até que é fácil acostumar-se com meu jeito, que é só meu e de quem quiser ser meu. Vem cá meu bem, que é bom lhe ver, o mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você!

Eu quero de novo aquelas conversas no quintal da frente enquanto se come uma mexerica. Quero as voltas de bicicleta e o esconde-esconde debaixo de chuva e depois apanhar da minha mãe. Quero as minhas preocupações e os problemas aqui comigo, que eles me chutem pra frente e eu os chute para o inferno no final. Quero as opiniões, as músicas, tudo que é muito bom e muito ruim de uma vez só.

Tenho que consertar o despertador e separar todas as ferramentas, que a mudança grande chegou e é hoje, tem de ser hoje. Não há tempo pra preguiças, pra depois, cadê toda aquela revolução que eu queria lá atrás? Vou brincar de mudar agora, vou abraçar antes que seja tarde, gritar pra não morrer engasgado, trabalhar muito pra não morrer de fome e rir muito pra quando a velhice chegar, olhar as marcas do meu rosto e continuar achando graça.

Assim é mais fácil.
E mais que tudo, quero ainda ter muito tempo.
E vou fazer uma canção de amor que fale da minha situação, de quem mantém a segurança de seu mundo por amor. Por amor a mim e a quem me rodeia.




O Mundo Anda Tão Complicado I

Lembro da época em que ouvia Legião e a vida era fácil de um jeito diferente. Tinha a escola com sua biblioteca gelada e a quadra na laje, poucos amigos, CDs em cima da cama e tardes longas para gastar o lápis até que a noite escurecesse as páginas. Sem as preocupações que tenho hoje. Naquela época era mais fácil decidir, o que eu escolhia não mudava o mundo alheio, embora a minha vontade de revoluções lá atrás fosse grande. Antes eu não tinha preguiça, nem dos fatos, nem de gente.

Hoje eu acordo ao meio-dia, amanhã é a sua vez.

Hoje o mundo anda bem mais complicado e quem gostava de Legião, hoje fala mal. Hoje não se sabe mais o que é bom, tudo é muito bom e muito ruim de uma vez só. Mas eu nem ligo. Hoje eu sou mais um, de medos, ansiedades e problemas comuns. Não decido nada pra não mudar a vida de ninguém, tampouco a minha. Perdi a mão pra revolução, tenho preguiça da opinião. E se hoje eu parei de escrever é porque dormi no metrô e esqueci tudo.

Hoje tenho vergonha de abraçar meus pais e de confessar que dormi mais tarde porque fiquei preocupada com o futuro deles. Os abraços de saudade e o ciúme dos irmãos se resumem a um email semanal com um link engraçado ou power point com filhotes que te ensinam a viver a vida. Infinitamente mais vergonhoso, mas de um jeito simples e romântico. A velha preguiça de gente, hoje já não existem mais conversas no quintal da frente enquanto se come uma mexerica.

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo, e até que é fácil acostumar-se com meu jeito, que nem sei se é mais meu. Eu, que vivi por décadas tentando conservar a minha essência, já mudei tanto nesses 2 últimos anos que nem me reconheço hoje.

Mas assim é mais fácil.
Você me conta como foi seu dia, e a gente diz um pro outro "estou com sono, vamos dormir!"
De fato, essa vida continua fácil. Mas com outras cores, não as mesmas de antes. Agora eu não tenho tempo, mas quando tiver, quero ouvir uma canção de amor que fale da minha situação, de quem deixou a segurança de seu mundo, mas até agora não viu aquele amor todo que cantavam na canção.




9.2.10

Diálogos...

Vivi

- Olha...você viu que as cédulas vão ter desenhos novos?
- Nossa, que bonito. Quem será que desenhou hein?
- É né, rs. Será que foi aquela menina que saiu daqui e fez um freela pro Banco Central?
- Hhauahiahua, já pensou?
- Hhaiuahaiuah... "As novas notas mantiveram as mesmas cores das antigas e os mesmos animais". Hum, eu nem sei qual bicho tem na nota de 100 reais, vi tão pouco essa nota.
- Tem um peixe. Bom, na de 20 eu sei que tem um macaco, isso é certeza.
- É, um mico leão dourado, né?
- É. Eu sei porque onde eu trabalhava um dos motoboys chegou com uma nota falsa, e no verso tinha um macaco mó grande impresso, tipo um gorila.
- HAHUHAHAHAHAHAHA
- Hahuuahua, muito zoada a nota. Ele disse "ah, eu nem vi, peguei a nota dobrada", depois teve mó trabalho pra trocar.
- Que burrrrrrro.
- Dá zero pra ele.


Imaginário

- Ana, olha a blusinha que eu comprei.
- (afff... comprou usada?) Que gracinha!
- É, eu gostei dela por causa dese bichinho aqui, tem vááárias roupas com a estampa dele agora na "loja tal"
- (ah é? foda-se) Ah, que bacana, muito fofo.
- O problema é que não tinha regata do meu tamanho, acabei comprando a G.
- (que bosta) Ah, que bosta.
- É, e agora eu tô me sentindo meio lésbica com essa regata assim. Não parece?
- (hahaha pode crer) Nada, imagina.
- Ah, vc não acha?
- (acho, quer uma pochete tb?) Que nada, tá normal. Mas se te incomoda, por que vc não troca?
- Acho que não deve ter outra, e eu já tirei a etiqueta.
- (então cala a boca) Ah...
- É ...
- (tá, tchau)


Libélula

- Bom dia.
- Bom dia.
- Que porra é essa na minha mesa?
- É uma libélula.
- Eu sei, mas tá morta?!
- Está. Achamos no jardim, aí alguém falou "A Ana gosta de libélula" e daí colocamos na mesa pra você!!! =D
- Mas como vcs sabem que eu gosto de libélula?
- Ah, vc não gosta?
- Eu adoro. Mas vivas, rs.
- Ah que bom.
- M-mas...
- Ah Ana, é presente, vai.
- Hnf... Eu vou tirar umas fotos dela, porque se eu contar, ninguém vai acreditar.

No mesmo dia, à tarde, tinha uma mariposa de 20cm na mesa, também de "presente". Aí é muita zoação. joguei a coitada fora sem velar o corpo.

Foda que tem 1 semana que a "lib" tá aqui e eu não tirei as fotos que prometi, ela está até entediada...





[...]




Irmaos Brain