A tarde começa a cair do mesmo jeito que começou o dia: azul.
Azul e com garoa.
Mas gostava de dias assim, de toda a melancolia poética que dias assim trazem. São dias soltos, pesados, caem de lá do calendário de inverno e vêm para a parte de baixo, do começo do ano.
Enquanto descia a ladeira pensava na quantidade de canetas e folhas gastas lá nos anos atrás. Nada disso preenchia o vazio que sentia no peito. Agora quer se livrar de toda a papelada porque na casa nova não tem espaço pro que era de ontem, o peito estufado com as coisas cotidianas.
O ar hoje é de um passado esfumaçado, algo perto de uma neblina escura que não incomoda, mas vem com aquele cheiro de cravo das gavetas e o aroma de papel velho. Cheiro de cachecol, se misturando ao mofo de carpete de anfiteatro. Como são bons esses cheiros de época.
Respirou fundo e sentiu-se bem. O cheiro que veio depois era só do ar gelado que queimava as bochechas. Agora, era só o barulho de asfalto molhado embaixo do seu tênis.
Era melhor assim, certas coisas são melhores apenas quando são lembradas.
Outras, nem isso... Não são mais pra hoje.
