30.8.08

 

... Não se trata do que ou de quem teve culpa pra chegarmos onde estamos agora. E tampouco me interessa onde cada um quer chegar, ou se quer chegar. Peço-te desculpas pelas coisas que te ofereci, pelo que prometi ter sido pra ti, acabei não sendo nada nem pra mim.

Lembra daquela casa que a gente planejou, de paredes brancas e almofadas vermelhas? Pensei nela hoje. Meu primo disse que em Rondônia tem uma caixa d'água daquelas dos Animaniacs, então eu projetei ali um lugar ideal pra fazer essa casa. Mas não pensei em ti lá dentro quando fiz as chaves.

Antes eu me preocupava tanto, com tanta coisa. Me preocupava em acelerar o tempo pra acabar o dia logo e poder te ver, em que desculpa eu arrumaria pra te ligar, só pra ouvir tua voz, olhava os emails a cada cinco minutos pra ver se chegavam novidades tuas. Me preocupava até em tentar mudar a direção do vento quando tu reclamava que teu cabelo estava bagunçado.

Não quero mais isso.
Não quero mais ler pensamentos, medir palavras ou atos, dar vazão a sentimentos, etc.
Não quero assumir toda essa coisa que soa piegas pra qualquer um que pega o bonde andando por aqui. Talvez agora eu queira só que o vento bata gelado no meu nariz. Hoje eu fechei os olhos querendo abrir sendo outra pessoa. Quando abri, a grama ainda estava lá. A garoa, o vento, tudo. Só quero ser mais um que escora na ponte em um fim de tarde qualquer e planeja nada além do que amanhã.... E só.

Não me convém mais preocupar com certos sentimentos. Ou o certo seria dizer não preocupar em demonstrar?
Não sei. Não me convém mais.

Não quero mais arrastar nada.




[... I can hear you singing my funny valentine
Oh you know that it breaks my heart...]

25.8.08

Paolla e o Raminho

Paolla foi até o jardim de todo dia e viu um raminho de flor diferente perto da raiz da paineira. No outro dia olhou de novo. No outro dia chegou mais perto. Semanas depois, Paolla ainda olhava o raminho, já com as florzinhas quase abertas. Parecia que ele também gostava de Paolla, até foto ela pediu pra mãe tirar. Paolla achava graça do raminho todo frágil no meio das raízes espinhentas da paineira, das formigonas.

Paolla contente contou do jardim pra um monte de gente, e o monte de gente começou a ir ao jardim pra procurar raminhos feito o seu, ou o seu. Agora tinha gente demais. Paolla se incomodou, temeu pelo raminho e tirou de um bolso furado a idéia de guardá-lo só pra si. Num vasinho. Não, num jarrinho. Não. No caderno. Depois ela vê. Num ímpeto, Paolla toda corada puxou o raminho com força pra cima do chão. As florzinhas tão delicadinhas agora só na sua mão.

Alguém viu e repreendeu, "Paolla, não faz besteira!"

Paolla confusa viu a besteira que fez e tentou consertar, foi plantar o raminho de volta no seu lugar, cheia de vergonha. Não achava o buraquinho daonde o raminho saiu, a grama tampava; cavou com uma moeda um buraco raso de qualquer jeito mesmo e fincou o troço na terra, cobriu rápido com o pé.

O raminho ficou lá, tombado. As florzinhas sujas de terra, de cara pro buraco das formigonas. Paolla agora ia embora, com a boca apertada e a mão suja de flor arrancada, querendo chorar.

Que triste.
Paolla não voltou na paineira até o fim da primavera. Ainda olha o jardim de longe, só pensa nos raminhos. No seu raminho.
Paolla não pensa que foi besteira, mas tem vergonha.




*suspiro*


19.8.08

Juliana

"nessa idade tudo é legal...

Quando a gente tinha uns doze, treze anos na família, andávamos em bando de primos... As idades variavam, mas o mais novo devia ter uns sete e o mais velho uns dezesseis... A gente vivia em pé de guerra entre a gente mesmo, mais velhos contra mais novos e tal, mas quando chegava um forasteiro, todas as facções se uniam pra arregaçar quem era de fora.
Uma vez, a gente tava lá no sítio, com os ânimos controlados, até que chegaram dois primos que não eram da panela, rs. Eram dois demônios em forma de meninos...
Depois de tê-los convidado pra fazer guerra de limão, onde eles eram os alvos, a gente decidiu pescar: colocamos o mais velho e mais terrivél de pé... bem em cima de um formigueiro com uma vara em isca, rs.

Tadinho...rs"


Flor de pessoa.


18.8.08

Conversa fiada


Faltou energia no trabalho.

Aproveitei o tempo pra visitar o jardim, escrever um pouco, depois fui colher amoras. O pé estava até que carregado, mas eram poucas as maduras.
Fiquei então conversando com a árvore, comentei que a flor de amora era meio sem graça, se reparar bem.
Ela riu e falou que eu pareço o pé de pitanga que fica atrás dela: grudado no chão e sem dar fruto nenhum; se acha porque é vermelha. Mas aceitou a minha crítica quanto às flores. Respondi que a culpa era da terra, mas ela retrucou. A terra era a mesma que a dela. Além disso, eu tenho pés, dedos, posso ir onde quiser, quando quiser, posso querer... Mas prefiro me comportar como o pé de pitanga.
Saí aborrecida pelo jardim, com umas amoras na mão pra me consolar. Olhei pro pé de ameixas do outro lado e os galhinhos, cheios de bolinhas verdes, balançaram-se em risada.
O pé de pitanga não quis comentar nada, ficou me fitando de canto de olho.



4.8.08

Poema do Chico


"Se mesmo assim

Frente ao instante final
Frente à certeza do fim que tudo afoga
Eu, ainda calado
Ainda um vestígio de dignidade
Puder amar?
Haverá o que prometer?
Haverá contratos a assinar?
Haverá porque assiná-los, afinal?


Meu bem
Ignoro o esplendor da infinidade
Ignoro toda medida que não é segundo
Ignoro tudo que não um agora de amor que nunca mais"



[06.NOV.2006, se não me engano]

3.8.08

 

Todas as manhãs renasço
Saio da cama como bebê
Que não quer nascer
À noite...
Com mais de cem anos de cansaço
Minha morte é em sonhos com você




2.8.08

Blues das 6

Era uma manhã fria
A chuva já caía
E o dia ainda dormia
Mais ujma vez eu saía de casa
Com o mesmo olhar tristonho
Sem nenhum dinheiro no bolso
E nem vontade no coração.
Pelas ruas vago...
Os prédios tortos costumavam
Me fazer companhia
Ouviam minhas poesias
Mas agora suas janelas têm grades.
Eu continuo vagando
Com o destino, insatisfeito
Saudades de um amor distante
E o barulho dos meus pés no asfalto.






1.8.08

Ressaca

De ressaca dos maus tempos
Ele ainda se equilibra
Tantas noites sem dormir
Esquentaram alguma esperança
Que agora se desfazia em reflexos
Na janela da sala
Se fosse um prédio, se jogaria (teria coragem?)
Mas sua casa era térrea

Restou-lhe, então,
Olhar a chuva pelo vidro



"... A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar..."
Irmaos Brain