1.8.08

Ressaca

De ressaca dos maus tempos
Ele ainda se equilibra
Tantas noites sem dormir
Esquentaram alguma esperança
Que agora se desfazia em reflexos
Na janela da sala
Se fosse um prédio, se jogaria (teria coragem?)
Mas sua casa era térrea

Restou-lhe, então,
Olhar a chuva pelo vidro



"... A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar..."

19.5.08

Rabisquinho II

"Vi você na rua:
fui à Lua!
De emoção? Não,
Nem de tesão.

Me senti leve como o vento
nenhum sentimento.

Foi-se embora o amor,
Que pena.
Mas eu
adorei a cena!"



de Gladis Lacerda

22.4.08

Hoje

Ia pela rua úmida correndo atrás do ônibus, fez que ia pular a grade e nem absorveu o cheiro de lenha que vinha do monte de lixo que queimava no terreno baldio do vizinho, conseguiu chegar a tempo de entrar no ônibus e pegar seu lugarzinho de todos os dias, lá no fundo. Pegou seu walkman, mas estava sem pilhas. Tudo bem, o dia não estava lá para sentimentos, para música, para sol, ou lá, ou ré, ou "se".

As pessoas que entravam depois traziam um cheiro de tempero de alho pra dentro do ônibus, que estranho. Se não estivesse com fome, teria sentido nojo, mas naquele momento sentiu conforto pelo cheiro de comida caseira que dominava o recinto.
Passou e olhou para a empresa onde trabalhava, por toda a extensão do terreno, gostava dali. Ficou pensando nas máquinas todas, no serviço, ai, quanta coisa fez hoje, que correria; mas era bom quando o dia terminava assim, perfeito, com tudo resolvido. É bom o sincronismo das coisas, que começam e acabam exatamente quando têm que acabar, quando se encaixam no espaço e tempo. Exatas. Gostava das coisas exatas, das engrenagens, medidas, números. Números são sempre exatos, mesmo quando os definem como quebrados ou infinitos. Mesmo com um monte de casas depois da vírgula, eles sempre são exatos, pode reparar.
Tentou cochilar, mas o ônibus balançava, e agora um cara enorme e cheio de coisas tinha sentado do seu lado, com suas bolsas, pastas e sacolas, ficou pequeno demais para relaxar. Olhou então para a janela, a noite estava tão laranja; pensou no seu cabelo, pensou em F.

F. era exato. Um babaca, mas um babaca exato. E finito. Lembrou que, em uma de suas infundadas discussões, F. disse que não gostava de cidade. Mal ele começara a lançar suas utopias medíocres de querer ir pra não sei onde, fazer não sei o que, ser não sei quem e comprar nao sei o que lá - F. adorava comprar, e ter, achava que isso dava poder, tão finito... - surgiu o assunto das ruas e suas luzes laranjas.
Olhou pela janela e sentiu um contentamento, um pouco por estarem longe agora, outro por se sentir parte daquele contexto. Fábricas, duras por fora e intermitentes por dentro, formiguinhas a trabalhar, restos de natureza brigando grotescamente pelo seu espaço subindo e descendo em bueiros destampados do lado de fora, nas calçadas, mesclando suas folhas sem ar em muros coloridos; a cor das tintas pra contrastar com o cinza das pessoas desbotadas, vêm e vão todo dia na mesma hora, são lugares que precisam de grafitti... Ah, já era parte dali, sentia-se bem ali. Tão finitamente bem que lembrou de que já devia ter esquecido para sempre de F., finito, que já acabou ali atrás e ainda não o avisaram.

Pensou na exatidão dos túneis e das linhas do metrô. E no metrô de outrora, será que, pensou em... O ônibus sacudiu como se proibisse novas questões, e agora o cara enorme ocupava metade do seu assento. Mas será que ele não está vendo-a ali? Esse é o problema das pessoas grandes, não vêm as menores. F. não era grande, mas queria ser, então agia como tal, por isso não a via, porque era pequena (grande por dentro, mas quem deixa?). Será que era essa a explicação? Aaah, esquece F., agora o cara enorme está deixando seu braço dormente com essa pasta enorme - gente grande gosta de tudo grande, como incomodam -, grite com sua vozinha que ele está te machucando, vai ver ele ouve de lá do alto das nuvens calvas que cobrem só a testa da grande montanha. Aaai!!

Antes que gritasse, o ônibus parou e chegou onde tinha que chegar. Finalmente. Andou até a escola e, que infortúnio, ao chegar na porta encontra exatamente com F.. Trocaram um "oi" sem graça, e ela ainda insistiu nas luzes laranjas e no concreto. Ele riu e respondeu:

"Falando em laranja, teu cabelo tá desbotando..."

"... Babaca!"

"Não, espera! Não era isso que eu ia falar."


Tinha que ser hoje.
Exatamente hoje.




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Irmaos Brain