1.4.09

A Recurring Dream Within A Dream



Faltava uns 3 minutos pra meia noite quando acordei de um sonho estranho. Olhei a hora no celular e levantei pra tomar um copo d'água, mas no meio do caminho vi uma fenda grande na parede da sala, de onde saía uma luz fraca e podia ouvir um burburinho do outro lado. Fui ver o que era, esqueci da água. Quando encostei, a parede abriu como uma cortina e um velho me puxou pra dentro dela.

Abriu como cortina, mas ainda era parede, e o buraco era estreito, arregaçou meus ombros. O velho era o Roger Waters, que na hora chamou uma moça pra me limpar, e me deu um avental. Ele falava muito rápido e preocupado, em russo, me entregou uma prancheta com uns estudos, umas fórmulas e desenhos de uma planta pegajosa que crescia pelas paredes do lugar. A minha função ali naquela noite era desenvolver um remédio a partir de uma bactéria que essa planta produzia pra achar a cura de uma doença, o planeta estava doente. Eu não ia ter equipe, trabalharia sozinha, mas de vez em quando ele acompanharia a evolução do caso e me ajudaria caso eu tivesse alguma dúvida.

Achei absurdo, eu gosto mas não entendo muito desses lances químicos. Tentei voltar pra sala da minha casa, mas ele me segurou e, pior, o buraco na parede tinha fechado e eu tava do outro lado. Que merda. Já era a minha água, e o que eu ia falar pra minha mãe?! Ele disse que na hora certa eu veria a minha mãe de novo, mas agora era bom trabalhar rápido.

Ele me mostrou a mesa onde eu ficaria, os equipamentos, os relatórios, tudo. O lugar era bem frio, e era coisa pra cacete, mas eu não tinha muita alternativa, então prestei atenção.
Foi moleza estudar a planta, isolar a bactéria e achar o tal remédio, e a planta pegajosa crescia mais do que não sei o que. Tinha um rádio lá na minha mesa, eu e o Roger Waters ficávvamos conversando sobre música às vezes, no café da tarde. Mas depois de um tempo, ele azedou, ficava triste quando ouvia qualquer música e arrancou a antena, pra não me desconcentrar. Sei. Eu também parei de assobiar, ele não gostava de assobio.

Fiquei anos nesse lugar, produzindo o tal remédio. Lembro que emagreci um bocado, porque me envolvi demais na causa e esquecia de comer e dormir, às vezes. Cada dia era quase igual ao outro, não tinha novidade, nem surpresas, tudo sempre igual, mas o trabalho era gostoso, eu não sentia cansaço nenhum. Depois de um tempo percebi que meu cabelo estava enorme, e a velocidade de crescimento da planta, e a sua qualidade, cresciam de acordo com o que eu sentia no dia. Estranho. Muito estranho. Ela lembra aquelas plantas aquáticas que tomam chá, que parecem uma gosmona, misturada com trepadeiras.

Até que um dia eu reparei que o "laboratório" estava sem muito movimento, silencioso demais pro meu gosto. Saí da minha mesa, andei pelo lugar e vi que o Roger Waters não estava mais na sala dele há muito tempo. Puto, fugiu e me largou trabalhando. Voltei pra minha mesa e, de repente, não tinha mais planta nenhuma pela parede. Me bateu uma aflição, comecei a andar de um lado pro outro, até que vi que tinha um quintal bem branco, quase fiquei cega com a luz do dia, eu não me lembro muito de ter saído depois de tantos anos de trabalho.

Enfim, nesse quintal aí, eu achei um portão meio aberto que dava num quarteirão perto de casa e, antes que alguém me visse, saí correndo feito louca, de avental e tudo, direto pra minha casa, pra ver se ela ainda estava lá. A TV estava ligada, que ótimo. Quando entrei, o roger Waters estava na TV falando de mim, e minha mãe estava no sofá, mas estava tão velhinha, mas tão velhinha... Tive um choque. Assim que ela me viu, chamou meus irmãos, também estavam velhos. Eles queriam saber quanto tempo eu fiquei fora, porque tinha fugido, nem viram a reportagem. Pô, eu fiquei anos trabalhando, precisava voltar pra minha cama... Depois contava o que havia acontecido, tava vesga de sono.


Acordei de novo, na minha cama.
Era 00:01h e eu tava morrendo de sede.
E até hoje lembro desse sonho quando ouço a música.





The clock struck midnight

And through my sleeping
I heard a tapping at my door
I looked but nothing lay in the darkness
And so I turned inside once more

Alan Parsons - A Recurring Dream Within A Dream

31.3.09

Melissa


E já digo que não ia com a cara dela no começo.
E, como todas as coisas que eu odeio de início, paguei a língua depois que conheci.

Soube da existência dela no saudoso fórum do Atari, mesmo lugar onde eu conheci os melhores amigos da minha vida. Mas eu não gostava dela, achava que aquele clima deprê e aquela competição no fórum de "eu sou mais triste que você" da época tava na moda demais, atrapalhava, e nessa época eu estava mais preocupada se eu gastava meus R$ 5,00 diários em comida pra minha casa ou na condução pra faculdade.

Mais pra frente, a gente se falou de verdade, na casa do Dudu. Ela estava numas de querer fugir pra Porto Alegre, mas precisava de uma irmã mais nova substituta, enquanto a "Iasmane" desbravava a Alemanha, e eu estava carente de amigas mulheres. Então, essa noite foi o suficiente pra gente combinar mil rolês e fazer apenas um, no Manifesto. Rolê esse onde conheci o Alexander alucinógeno e um falso poeta que não me deixava jogar sinuca, mas até aí tudo bem, ninguém estava jogando mesmo.

Depois vieram as conversas intermináveis e os casos super engraçados de laboratório. Achava engraçado a naturalidade com que ela contava dos cocôs que analisava, dos exames de papanicolau que fazia, e rolava de rir.

Foram muitas fases, a de Porto Alegre, a das discotecagens na Killer Cat, a da Funhouse, a Rockabilly, a de querer ser loira, a de andar na Paulista, a de comissária, a hip hop, a de quando ela realmente ficou loira, a do desemprego, a do quarto novo, a fase da Whitney Houston, agora a da faculdade e muitas outras que ainda virão. No começo eu pensava "credo, que menina inconstante, como ela consegue?", mas com o tempo eu aprendi que ser constante demais era o que me enjoava de mim mesma e, mesmo que tu quebre a cara depois que muda algo em ti, já ganhou algo, porque mudou, e isso é bom, segundo a minha amiga metamorfose-ambulante que não se parece nada com o Raul Seixas, ainda bem.

E com os meninos? Dessa parte eu nem vou falar, isso é pra gente só lembrar e rir. Mas rir muito, depois de ter chorado tanto à toa juntas.

Ela me defendeu de um assalto feio na galeria. No mesmo dia, me apresentou o Rodrigón, e devia ganhar o Prêmio Nobel da Amizade só por isso. Ela me ensinou a usar maquiagem, a gostar de cosméticos, a usar camiseta sem parecer tão largada, a ser mais feminina, a ficar horas nessas lojas de shampoo e cremes ou edredons na Zêlo sem ninguém pra apressar ou nos chamar de bregas. Me ensinou também que ter amigo muito mais novo, adolescente, é muito mais divertido do que a gente pensa, é como voltar às vezes ao próprio passado. E me passou o vírus que faz a gente gostar tanto de Porto Alegre.

Ela tem também seu lado chato, cocôzona. Mas esse lado eu não conheço ainda, e quando conhecer, espero que não mude nada do que eu acho dela.

Ela é a irmã mais velha que eu não tive mesmo. E eu adoro um tanto essa figurinha de peruca cinza que gosta de fuçar cadáveres (não, ela não arromba túmulos, faz Biomédicas).

Mel, como diz o título, esse post é pra você.
Estava te devendo de aniversário ainda, não postei nada a seu respeito, que desfalque!
Mas te amo de qualquer forma, bicha!



26.3.09

Pós


Não sei se alguém ainda vem aqui, então não sei se cabe alguma satisfação, ultimamente nem reclamam mais que eu não atualizo o blog, rs. E eu também nem faço muita questão, enfim.
Como faz tempo que não publico nada, ainda mais a meu respeito, vou falar sobre o curso de pós-graduação que comecei a fazer.

Fazer pós-graduação é uma coisa engraçada: tu vai pra escola, cada aula tem um tema, as pessoas conversam, ouvem, conversam de novo e voltam pra casa. Não tem caderno, nem apostila, nem tópico na lousa. Só sugestões pra leitura, pesquisa. Nem parece escola, nem parece sério. Mas é legal.

A escola fica bem longe de casa, como a maioria das escolas que eu escolho pra estudar. Mas nem é implicância minha com as escolas da minha cidade, tampouco falta do que fazer, ou vontade de andar de metrô (hahaha que pobre, mas pode ser isso), é que onde eu moro não tem os cursos que eu quero fazer, só aqueles pra pessoas normais, que gostam de escritórios, vendas, afe. Odeio.

Como escolhi um curso moderninho da área de humanas, fica difícil fazer amigos. Na minha classe ninguém se enturma, todo mundo troca idéia com o próprio ego. Enquanto isso, eu acho graça no jeito artístico de cada um e vou andando pela escola, procurando algum lugar onde posso olhar o céu sossegada, enquanto ouço as minhas músicas e fumo meus cigarros imaginários até chegar a hora da aula.

As aulas de terça são legais, de História da Arte. A professora parece a minha mãe (no jeito), é bem versátil (já foi até bailarina) e conta os movimentos literários como se fossem fofocas, na feira, "aí, meninos, sabe o que o Napoleão fez? Pois é, deu uma de doido, catou a coroa do Papa e falou 'Agora eu sou Rei'. A galera não gostava do jeito afetadinho dele, mas eu achei o máximo"... ou "Olha a Eva de Rendbrant, gente, que musculosa, será que eles faziam natação? Ou caçavam? Olha esse muque!"
É engraçado, porque tu passa uns 11 anos ouvindo na escola de Napoleão, Luiz XIVLMMDC da vida, Madame não sei lá das quantas, e pelas roupas e pelas caras que pintam nos nossos livros de história, já fica aquele preconceito de que fulano era chato, todo mundo era sério naquelas épocas e a matéria acaba virando um porre... Sobram as mitologias, com as estátuas sem roupa e o bacanal entre os deuses pra dar um pouco de diversão nas aulas. Aí, chega numa aula dessas e a mulher consegue mostrar o que de arte, de sentimento, tinha ao redor de cada um dos personagens até então chatos, nos faz entender a época e o porquê de cada um ter tomado tal atitude. Isso sim é legal.

Outra coisa que aprendi outro dia e que vivia me perguntando quando era pequena e nunca falavam na escola: o que acontecia no Brasil enquanto acontecia uma pá de coisa na Grécia, Roma, Mesopotâmia, etc? Eu ficava doida, me coçava de curiosidade de saber disso enquanto falavam da Constantinopla e do Alexandre, o Grande; até os incas, maias e astecas já faziam cosas legais e ninguém falava do Brasil, impossível que os índios ficavam vagando pelo país afora mastigando matinho enquanto a galera inovava pelo mundo afora. Até que outro dia a professora contou tudo o que aconteceu por aqui mas a minha ansiedade não me deixou prestar atenção e eu esqueci.

=(

Agora, as aulas de quinta, de Comunicação, Linguagem e Sentidos, é que são as mais fodas. Não exatamente no sentido de legal, são fodas. A professora tem uns vestidos muito legais, juro que passo a aula tentando entender os cortes, a montagem, o tecido, do que prestando atenção nas "asneiras" que ela tá falando. Ela fala "fláche" em vez de "flash", "andergrão" em vez de "underground", "tráche" em vez de "trash", e de vez em quando solta uns menas e estrupo. Tá bom, não sejamos chatos, o importante é compreender a mensagem passada, embora menas eu não aceite de jeito nenhum!

Mas o foda das aulas de quinta são os vídeos que ela coloca pra gente debater. As poesias experimentais do Arnaldo Antunes, o vídeo da Fernanda Abreu+Fausto Fawcett só de colagens, que de tão ruim nem no youtube tem, um filme francês misturado com teatro, tremendamente mal dublado... Coisas que lavam a mente de um jeito feio. Durante os filmes eu fico calculando a distância entre a Lapa e a minha casa em palmos, réguas (não léguas), qualquer unidade efêmera que me desligue daquele momento. Tô vendo um dia que ela passe um vídeo do Blitz pra gente analisar. Aí eu saio da sala.


Apesar de todas essas peculiaridades, da distância da escola, são apenas duas aulas por semana e, por incrível que pareça, não tem como não gostar. Acabo achando uma pena que sejam apenas 8 aulas de cada uma por módulo, a gente começa a se acostumar e já tem que se despedir.

Que coisa.





Irmaos Brain