14.5.09

Coca Quente


Carllo era um jovem de família feliz, seu primeiro emprego foi de ajudante, depois passou para motorista do caminhão da Coca-cola. Era um rapaz feliz e seus pais eram orgulhosos dele.


Um dia, o carro do amante da mãe de Carllo enguiçou no motel, foi preciso chamar o guincho. Por infortúnio, os refrigerantes do estabelecimento tinham acabado no mesmo dia. Mas o caminhão da Coca-cola chegou a tempo de matar a sede do pessoal, e a tempo de Carllo descobrir sua mãe no motel com um cara que não era o seu pai.

Carllo, de tristeza, largou o emprego, saiu de casa, sumiu na vida. Não se sabem notícias dele. Na casa dos pais, ninguém toma Coca-cola.



Gafe de Bolso


No aniversário do meu primo vermelho:
- ... eu gostei do seu cabelo.
- ... ha, e eu achei seu sotaque tão bonitinho. Você é estrangeiro?
- ... não, eu sou deficiente auditivo, eu falo assim mesmo.
*- Ai! Desculpa!
- Tudo bem, eu vou fingir que não ouvi essa, hahaha

E eu vou fingir que não existo, com licença.

* nessa hora eu senti o tempo parando igual no Constantine



1.4.09

A Recurring Dream Within A Dream



Faltava uns 3 minutos pra meia noite quando acordei de um sonho estranho. Olhei a hora no celular e levantei pra tomar um copo d'água, mas no meio do caminho vi uma fenda grande na parede da sala, de onde saía uma luz fraca e podia ouvir um burburinho do outro lado. Fui ver o que era, esqueci da água. Quando encostei, a parede abriu como uma cortina e um velho me puxou pra dentro dela.

Abriu como cortina, mas ainda era parede, e o buraco era estreito, arregaçou meus ombros. O velho era o Roger Waters, que na hora chamou uma moça pra me limpar, e me deu um avental. Ele falava muito rápido e preocupado, em russo, me entregou uma prancheta com uns estudos, umas fórmulas e desenhos de uma planta pegajosa que crescia pelas paredes do lugar. A minha função ali naquela noite era desenvolver um remédio a partir de uma bactéria que essa planta produzia pra achar a cura de uma doença, o planeta estava doente. Eu não ia ter equipe, trabalharia sozinha, mas de vez em quando ele acompanharia a evolução do caso e me ajudaria caso eu tivesse alguma dúvida.

Achei absurdo, eu gosto mas não entendo muito desses lances químicos. Tentei voltar pra sala da minha casa, mas ele me segurou e, pior, o buraco na parede tinha fechado e eu tava do outro lado. Que merda. Já era a minha água, e o que eu ia falar pra minha mãe?! Ele disse que na hora certa eu veria a minha mãe de novo, mas agora era bom trabalhar rápido.

Ele me mostrou a mesa onde eu ficaria, os equipamentos, os relatórios, tudo. O lugar era bem frio, e era coisa pra cacete, mas eu não tinha muita alternativa, então prestei atenção.
Foi moleza estudar a planta, isolar a bactéria e achar o tal remédio, e a planta pegajosa crescia mais do que não sei o que. Tinha um rádio lá na minha mesa, eu e o Roger Waters ficávvamos conversando sobre música às vezes, no café da tarde. Mas depois de um tempo, ele azedou, ficava triste quando ouvia qualquer música e arrancou a antena, pra não me desconcentrar. Sei. Eu também parei de assobiar, ele não gostava de assobio.

Fiquei anos nesse lugar, produzindo o tal remédio. Lembro que emagreci um bocado, porque me envolvi demais na causa e esquecia de comer e dormir, às vezes. Cada dia era quase igual ao outro, não tinha novidade, nem surpresas, tudo sempre igual, mas o trabalho era gostoso, eu não sentia cansaço nenhum. Depois de um tempo percebi que meu cabelo estava enorme, e a velocidade de crescimento da planta, e a sua qualidade, cresciam de acordo com o que eu sentia no dia. Estranho. Muito estranho. Ela lembra aquelas plantas aquáticas que tomam chá, que parecem uma gosmona, misturada com trepadeiras.

Até que um dia eu reparei que o "laboratório" estava sem muito movimento, silencioso demais pro meu gosto. Saí da minha mesa, andei pelo lugar e vi que o Roger Waters não estava mais na sala dele há muito tempo. Puto, fugiu e me largou trabalhando. Voltei pra minha mesa e, de repente, não tinha mais planta nenhuma pela parede. Me bateu uma aflição, comecei a andar de um lado pro outro, até que vi que tinha um quintal bem branco, quase fiquei cega com a luz do dia, eu não me lembro muito de ter saído depois de tantos anos de trabalho.

Enfim, nesse quintal aí, eu achei um portão meio aberto que dava num quarteirão perto de casa e, antes que alguém me visse, saí correndo feito louca, de avental e tudo, direto pra minha casa, pra ver se ela ainda estava lá. A TV estava ligada, que ótimo. Quando entrei, o roger Waters estava na TV falando de mim, e minha mãe estava no sofá, mas estava tão velhinha, mas tão velhinha... Tive um choque. Assim que ela me viu, chamou meus irmãos, também estavam velhos. Eles queriam saber quanto tempo eu fiquei fora, porque tinha fugido, nem viram a reportagem. Pô, eu fiquei anos trabalhando, precisava voltar pra minha cama... Depois contava o que havia acontecido, tava vesga de sono.


Acordei de novo, na minha cama.
Era 00:01h e eu tava morrendo de sede.
E até hoje lembro desse sonho quando ouço a música.





The clock struck midnight

And through my sleeping
I heard a tapping at my door
I looked but nothing lay in the darkness
And so I turned inside once more

Alan Parsons - A Recurring Dream Within A Dream
Irmaos Brain