"Você só arruma perdedores", sua mãe havia lhe dito um dia.
"Não, mamãe, a perdedora sou eu... Mas não vou perder hoje de novo, ah, não dessa vez", bradou em pensamento enquanto saía pela porta.
Entrou no carro. Aquele perfume tão dele a inebriava, e aqueles malditos olhos a desarmavam, enchiam daquela coisa que só ele tem e que passa só pra ela. Seu olhar de ódio jamais o atingiria, ele estava protegido pelo óculos, foi enfraquecendo.
"Há quanto tempo..." ficou parada, revivendo alguma coisa que já não tinha importância naquela hora, enquanto ele a abraçava? As palavras saiam de sua boca como um maldito tocador de flautas, ela toda cobra hipnotizada, deixando o veneno escorrer pelos poros, dormente, dançando conforme seus olhares.
Mesmo sabendo de toda a seqüência dos fatos, daquele jeito só dele de tocar seu braço e beijar com os olhos cerrados, das mãos em suas costas, do peso do cabelo tão liso dele sobre seu peito... Mesmo sabendo que, sim, tinha como acabar com tudo aquilo a tempo de vencer a guerra, foi desertora. Qualquer arma que sacasse ali, na hora, qualquer ato seu, qualquer estratégia seria inútil: ele sempre percebe e lança seu antídoto.
Suas pupilas de fundo do mar abriram como se quisessem engoli-la, e chegaram perto bem devagar. Foi a última coisa que viu antes de amanhecer.
Ela havia perdido mais uma.
[...continua]
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