5.2.08

Miguel

"Olha o que um tio meu me falou, Ana! Eu tinha uns 4 anos, e sabe aqueles cabides que vc põe no chão e tem uns trecos pra vc pendurar as roupas? Ele comprou um desses, mas não era de madeira, era de ferro, alumínio, sei lá. Era brilhante e chamava a atenção, pq ele tinha algumas pontas e era giratório. Eu olhei e achei mó bonito, era mó brilhante, e perguntei 'Nossa tio, o que é isso?'. Sabe o que o desgraçado me respondeu? 'Ah... Isso é uma estrela, ela caiu do céu e eu fui correndo atrás e a peguei!'.
Eu fiquei encantado, fiquei olhando aquilo e pensando como era possível brilhar tanto, e fazia sentido pra mim, pois a estrela tinha pontas mesmo, igual aquele treco giratório. Fiquei tão encantado que duvidei por um momento, e decidi fazer a coisa mais sensata, perguntar pra uma segunda pessoa de confiança. 'Pai, isso é uma estrela mesmo?'. 'Claro meu filho'.
Maldito. E saí falando pra todo mundo que o tio tinha pegado uma estrela.
As pessoas ficaram felizes, assim como eu, rindo (de mim) comigo."



Miguel me deixa bem.




4.2.08

Moscou I

"Você só arruma perdedores", sua mãe havia lhe dito um dia.
"Não, mamãe, a perdedora sou eu... Mas não vou perder hoje de novo, ah, não dessa vez", bradou em pensamento enquanto saía pela porta.
Entrou no carro. Aquele perfume tão dele a inebriava, e aqueles malditos olhos a desarmavam, enchiam daquela coisa que só ele tem e que passa só pra ela. Seu olhar de ódio jamais o atingiria, ele estava protegido pelo óculos, foi enfraquecendo.
"Há quanto tempo..." ficou parada, revivendo alguma coisa que já não tinha importância naquela hora, enquanto ele a abraçava? As palavras saiam de sua boca como um maldito tocador de flautas, ela toda cobra hipnotizada, deixando o veneno escorrer pelos poros, dormente, dançando conforme seus olhares.
Mesmo sabendo de toda a seqüência dos fatos, daquele jeito só dele de tocar seu braço e beijar com os olhos cerrados, das mãos em suas costas, do peso do cabelo tão liso dele sobre seu peito... Mesmo sabendo que, sim, tinha como acabar com tudo aquilo a tempo de vencer a guerra, foi desertora. Qualquer arma que sacasse ali, na hora, qualquer ato seu, qualquer estratégia seria inútil: ele sempre percebe e lança seu antídoto.
Suas pupilas de fundo do mar abriram como se quisessem engoli-la, e chegaram perto bem devagar. Foi a última coisa que viu antes de amanhecer.

Ela havia perdido mais uma.




[...continua]



30.1.08

Para F. II

Às vezes te gosto tanto...
Noutras queria te fazer sumir, virar areia, poeira, fumaça de cigarro que a gente sopra tudo pra fora e contempla enquanto dissipa. Mas com você não usei filtros, não fiz questão.
Agora você vira essa mancha suja no meu pulmão, cisto, neoplasia maligna que se alastra na velocidade das sinapses, não há quimioterapia que cure, a cura talvez seria o renascimento.
E por que você?
Por que eu?
Adianta querer responder?
Talvez um consolo para a burrice, se é que pode dizer "burrice" se deixar gostar de gente hoje em dia. "Estupidez" classificaria melhor a insistência em alguém que não sabe ser, diz ter medo de ser.

O pior cego é aquele que não quer ver. E o pior estúpido é o que insiste em sentir.





Irmaos Brain