Estou cá, isolada em minhas paranóias e vigilância noturna, lembrando do que tenho medo. Da hora em que não conseguirei mais segurar as palavras e elas correrão, batendo na boca do teu estômago. Cravo os dentes uns nos outros com força, pra não deixar escapar a língua. Porque quando escapar, vai percorrer teu corpo todo, tua pele e pêlos, sentidos, tudo, feito serpente enfeitiçada pelo teu cheiro que não habita mais minhas manhãs.
Cerro os ouvidos, agora temo teu riso tão entranhado em mim, pendurado em minha orelha, descendo pelo pescoço forte como tua voz grave, ah... escorre pelo corpo todo, lascivo.
Dos olhos eu nem falo mais, desses teus olhos fundo do mar que me afundam e me afogam, eu que desaprendi a nadar faz tempo, perco o ar.
Me encolho. Sou pequena, criança acuada com medo do escuro e que não sabe pra qual lado ficou a porta na hora de fugir, de pernas bambas... mas queria que me pegasse de calças curtas.
[Björk = The Dull Flame of Desire]
30.8.07
19.7.07
Reinaldo
"Uma vez a minha irmã quebrou o braço, ela deveria ter uns 10 anos, e emendaram (*) o braço dela errado. Então, depois de 6 meses de gesso, tiveram que quebrar o braço dela de novo pra encaixar os ossos certo. Aí, 3 meses depois, ela tirou o gesso e quando chegou em casa, correu pro tanque pra lavar o braço fedido de chulé de gesso. Ela pegou o sabão e esfregava, esfregava no braço, mas não saía espuma.. esfregava de novo e, nada. Depois de umas 3 tentativas ela foi olhar pro sabão e, surpresa: não era um sabão, era uma lesma, daquelas que parecem folhas secas de jardim!"
Saudade desse rapaz.
(*) ou imendaram, nunca sei escrever essa palavra.
Saudade desse rapaz.
(*) ou imendaram, nunca sei escrever essa palavra.
17.7.07
Dezessete de Julho
Ah, que dia lástima foi hoje. Desses dias que demoram mais que um dia pra passar, em que as coisas que empurro com a barriga é que me empurram pra encarar uma janela chuvosa e começar o dia sem outro hálito que não seja o meu no travesseiro do lado. Deixei um sol desenhado no vidro e saio com a cabeça reta, fingindo estar num musical americano de véspera de fim de ano, só pra me sentir mais notável. Cheguei ao final da rua e meu coadjuvante não apareceu, segui em frente com meu estilo sem graça, de volta à realidade, ora pensando quanto tempo deve fazer que não vejo fumaças saírem do asfalto.
Fui trabalhar pensando no quanto deveras é necessário ter que encontrar pessoas e alimentar seus mundinhos com frases feitas de água com açúcar em troca de algum dinheiro. E passei o dia todo assim, grafite, até escurecer. Saí do trabalho com trejeitos de "não me toque", não por frescura. É que hoje me senti tão oca que um vento mais forte me derrubaria no chão, me quebrando feito vaso de argila; porcelana não, porque não sou delicada. Era mais um fim de dia e eu voltava pra casa absorta nos esboços de filmes que invento todo dia e que nunca acho um desfecho. A bem da verdade eu já me enjoei dos mesmos personagens, da mesma história batida, mas os pontos de inspiração são os mesmos há tempos. Tentei lembrar em qual parte da transição adolescente-adulta perdi minha criatividade, mas a água que espirrava da rua quando os caminhões passavam era mais importante àquela hora, deixei o filme de lado.
Pensei em fumar, em me embebedar, em D., em fazer um bolo, ah... pensei em tanta coisa e ultimamente é só o que venho fazendo, pensado. Pensei que pudesse morar sozinha hoje, em um apartamento de paredes limpas e almofadas vermelhas no Jabaquara, pra ver a noite caindo em garoa lá fora bem devagar, enquanto mexia no cabelo e cantava "More than this" só de camiseta, calcinha e meia. Mais tarde, D. chegaria e me daria um abraço de oito minutos, festinha no cabelo e um fim de noite bem quente. Mas ainda moro com a minha mãe e ela não pára de falar, de sonhar acordada com o que pode ou poderia ter feito "se", e de seu amor pelos argentinos.
Fui tomar um banho pra ver se alguma coisa se preencheria dentro de mim, depois troquei com D. algumas frases vagas na internet. Queria tanto tê-lo visto hoje, ele não sabe o quanto. Ou deve saber, não sei mais. Fiz um pacto com o vitrô do banheiro e prometi a ele não ficar pensando tanto, depois fui dormir cedo, depois de uns trechos do Neruda e um mingau de chocolate, embaralhando o pensamento em D., coisas do trabalho e Matilde até o sono me apagar.
[The Cure = More Than This]
Fui trabalhar pensando no quanto deveras é necessário ter que encontrar pessoas e alimentar seus mundinhos com frases feitas de água com açúcar em troca de algum dinheiro. E passei o dia todo assim, grafite, até escurecer. Saí do trabalho com trejeitos de "não me toque", não por frescura. É que hoje me senti tão oca que um vento mais forte me derrubaria no chão, me quebrando feito vaso de argila; porcelana não, porque não sou delicada. Era mais um fim de dia e eu voltava pra casa absorta nos esboços de filmes que invento todo dia e que nunca acho um desfecho. A bem da verdade eu já me enjoei dos mesmos personagens, da mesma história batida, mas os pontos de inspiração são os mesmos há tempos. Tentei lembrar em qual parte da transição adolescente-adulta perdi minha criatividade, mas a água que espirrava da rua quando os caminhões passavam era mais importante àquela hora, deixei o filme de lado.
Pensei em fumar, em me embebedar, em D., em fazer um bolo, ah... pensei em tanta coisa e ultimamente é só o que venho fazendo, pensado. Pensei que pudesse morar sozinha hoje, em um apartamento de paredes limpas e almofadas vermelhas no Jabaquara, pra ver a noite caindo em garoa lá fora bem devagar, enquanto mexia no cabelo e cantava "More than this" só de camiseta, calcinha e meia. Mais tarde, D. chegaria e me daria um abraço de oito minutos, festinha no cabelo e um fim de noite bem quente. Mas ainda moro com a minha mãe e ela não pára de falar, de sonhar acordada com o que pode ou poderia ter feito "se", e de seu amor pelos argentinos.
Fui tomar um banho pra ver se alguma coisa se preencheria dentro de mim, depois troquei com D. algumas frases vagas na internet. Queria tanto tê-lo visto hoje, ele não sabe o quanto. Ou deve saber, não sei mais. Fiz um pacto com o vitrô do banheiro e prometi a ele não ficar pensando tanto, depois fui dormir cedo, depois de uns trechos do Neruda e um mingau de chocolate, embaralhando o pensamento em D., coisas do trabalho e Matilde até o sono me apagar.
[The Cure = More Than This]
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