17.7.07

Dezessete de Julho

Ah, que dia lástima foi hoje. Desses dias que demoram mais que um dia pra passar, em que as coisas que empurro com a barriga é que me empurram pra encarar uma janela chuvosa e começar o dia sem outro hálito que não seja o meu no travesseiro do lado. Deixei um sol desenhado no vidro e saio com a cabeça reta, fingindo estar num musical americano de véspera de fim de ano, só pra me sentir mais notável. Cheguei ao final da rua e meu coadjuvante não apareceu, segui em frente com meu estilo sem graça, de volta à realidade, ora pensando quanto tempo deve fazer que não vejo fumaças saírem do asfalto.
Fui trabalhar pensando no quanto deveras é necessário ter que encontrar pessoas e alimentar seus mundinhos com frases feitas de água com açúcar em troca de algum dinheiro. E passei o dia todo assim, grafite, até escurecer. Saí do trabalho com trejeitos de "não me toque", não por frescura. É que hoje me senti tão oca que um vento mais forte me derrubaria no chão, me quebrando feito vaso de argila; porcelana não, porque não sou delicada. Era mais um fim de
dia e eu voltava pra casa absorta nos esboços de filmes que invento todo dia e que nunca acho um desfecho. A bem da verdade eu já me enjoei dos mesmos personagens, da mesma história batida, mas os pontos de inspiração são os mesmos há tempos. Tentei lembrar em qual parte da transição adolescente-adulta perdi minha criatividade, mas a água que espirrava da rua quando os caminhões passavam era mais importante àquela hora, deixei o filme de lado.
Pensei em fumar, em me embebedar, em D., em fazer um bolo, ah... pensei em tanta coisa e ultimamente é só o que venho fazendo, pensado. Pensei que pudesse morar sozinha hoje, em um apartamento de paredes limpas e almofadas vermelhas no Jabaquara, pra ver a noite caindo em garoa lá fora bem devagar, enquanto mexia no cabelo e cantava "More than this" só de camiseta, calcinha e meia. Mais tarde, D. chegaria e me daria um abraço de oito minutos, festinha no cabelo e um fim de noite bem quente. Mas ainda moro com a minha mãe e ela não pára de falar, de sonhar acordada com o que pode ou poderia ter feito "se", e de seu amor pelos argentinos.
Fui tomar um banho pra ver se alguma coisa se preencheria dentro de mim, depois troquei com D. algumas frases vagas na internet. Queria tanto tê-lo visto hoje, ele não sabe o quanto. Ou deve saber, não sei mais. Fiz um pacto com o vitrô do banheiro e prometi a ele não ficar pensando tanto, depois fui dormir cedo, depois de uns trechos do Neruda e um mingau de chocolate, embaralhando o pensamento em D., coisas do trabalho e Matilde até o sono me apagar.


[The Cure = More Than This]



4 comentários:

  1. Neruda nesses dias aperta ainda mais o coração!

    Jú Mancin

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  2. Anônimo18.7.07

    Ah! os pensamentos, sei como é isso, valeu pelos coments no blog.
    grande abraço e força sempre.

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  3. ooooh rainwalker!
    adorei muitissimo.

    não sou só eu a bruxa no mundo. vc tb é! rs...

    beijo
    Lu

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  4. Pensar?... Meu dias estão tão apertado e corrido que as lacunas existentes estão preenchidas por algo que não compreendo, mas que quando percebo já passou. Olhei duas semanas para frente e fechei os olhos de tanta coisa. Se é bom? Não sei ainda. Dizem que tudo em excesso faz mal.

    Estamos em opostos.

    Beijos!

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