Essa foi light.
Depois de entrar no ônibus, rumo ao trabalho, acabei me sentando numa daquelas cadeiras altas, em cima da roda e que sacolejam pra caramba, e ali não era um bom lugar para praticar a minha pestana diária antes do trabalho. Fiquei pensando por alguns segundos em como eu havia sido burra, por que não tinha sentado lá no fundo, etc.
Eis que um cara de blusa laranja entra no coletivo com uma mala, bem no momento em que eu pensava "mudo ou não mudo pro fundão?". O ônibus estava enchendo, eu tinha que ser rápida. O cara da blusa laranja parou ali do lado bem na hora que pensei "é agora" e me levantei em direção à cadeira do fundão, que sacolejava menos e onde eu deveria ter sentado desde o começo. Acabei pisando na mala do cara sem querer, ao que pedi desculpas prontamente, mas olhando pra baixo, por vergonha e porque eu tinha que olhar onde eu estava pisando depois dessa gafe.
Fui para o fundão e me acomodei, bem melhor sentar ali. Enquanto o cara de laranja, que depois se revelou um pedinte, inicia o seu discurso: sua história de vida, trabalhou 10 anos na Varig, mas teve um câncer no cérebro que resultara em um derrame e o deixara inválido; fazia tratamento no HC há 12 anos, mas não podia trabalhar, por isso estava ali pedindo a colaboração dos passageiros e aquela coisa toda.
No meio do discurso, fui citada. "Não sei se vocês repararam, mas bem no momento que eu cheguei uma CIDADÃ até mudou de lugar. Eu não tenho culpa, mas também não tenho vergonha por ter ficado com o rosto assim. Bla bla bla bla..."
Eu já estava quase cochilando, mas essa citação me deixou inquieta. Eu bem que achei legal a entonação e a seriedade que ele usou pra falar "cidadã", mas pô, nem olhei direito pra cara do rapaz e ele vem querer usar a minha imagem sonolenta pra marketing pessoal?
Não chegou a me ocorrer o pensamento de "ah, deixa pra lá, é um coitado mesmo", mas o "vou ajudar o cara só pra ele não pensar errado a meu respeito" ocupou o a minha mente por algum tempo, embora eu achasse um baita desaforo, já que mudei de lugar porque queria dormir. Por que o cara ia querer encrencar comigo (porque essas coisas só acontecem com você, Ana)?
De qualquer forma, eu já me precavi articulando mentalmente todos os tipos de ações e reações possíveis caso ele proferisse algo contra mim quando chegasse perto (exceto se ele cuspisse em mim, não pensei nisso). Não por ser pedinte, mas porque a gente nunca sabe do que o ser humano é capaz de fazer pra aparecer e ganhar vantagem sobre qualquer coisa.
A minha paranóia tomava proporções absurdas e eu já me preparava para uma chalaça em público, mas tinha um mendigo no meio do caminho. No meio do caminho tinha um mendigo. Que começou a criticar o pedinte por ele ter uma tatuagem no braço e não ter vergonha de pedir moedas se tinha dinheiro pra fazer tatuagem. "O que tem a ver uma coisa com a outra?", o pedinte indagou, logo emendando toda aquela explicação de ter trabalhando na Varig durante 10 anos e já ter tido $ pra pagar a tatuagem. E ficaram discutindo na minha frente, ali perto da porta de descer. Eu de olhos fechados, mas ouvindo tudo.
Antes que eu abrisse o zíper da mochila pra pegar uns trocados para o pedinte, o ônibus parou num ponto e os dois desceram junto com mais um monte de gente. E, pelo que deu pra ouvir, continuaram brigando na calçada. E eu segui meu caminho.
Que final mais enfadonho. Mas fiquei aliviada por não aparecer em público por causa de interpretações errôneas, e voltei ao meu cochilo.
O foda é que, escrevendo isso, me bateu uma curiosidade sobre como devia ser o rosto do pedinte...

Putz, amore! Passou por preconceituosa por tabela. Haha.
ResponderExcluir=***
É por essas e outras que eu sou totalmente a favor da criação da Mendigolândia...vai mano, me chama de nazista agora!!! ahhahahah
ResponderExcluirto zuando, abajour toillete boite.
=P
hahahahaha... vc é mt engraçada!
ResponderExcluiruma vez tava passando por um túnel subterrâneo e passaram uns pivetes me olhando feio e criticando o fato de eu andar segurando minha bolsa, como se isso demonstrasse meu preconceito por eles serem da rua.
Eu sempre ando agarrada na minha bolsa, sei lá por que! É uma mania boa q me evita assaltos.
Na hora me deu vontade de xingar e dizer, "VTC! A bolsa é minha e a carrego do jeito q eu quiser, ora bolas!"
Mas eu nao tive tempo de pensar mt, só segui meu caminho.
Ah, eu não xingo não... vai que eles vêm atrás de mim e roubam a minha bolsa, QUIÁ QUIÁ, que mancada, é brincadeira.
ResponderExcluirPessoal perde um tempo grande da vida achando qualquer coisa dos outros, não é mesmo?
Bjos
kkkk Ótima história, adorei!
ResponderExcluirSunset, obrigada pela visita. Me chamou a atenção o seu avatar de Dara. Nunca entendi por que pararam de passar esse desenho... ou ele voltou? Marcou muito uma época de minha vida (sou um pouquinho mais velha que vc). Ah, sou filha da Cecilia, aquela que emoldurou o quadro em ponto de cruz. Já bordou a Dara?
Beijão
Helena